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| Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil |
A Câmara paga aposentadoria de até R$ 23.344,70 por mês para
deputados cassados. Os benefícios são provenientes de um plano de previdência
abastecido, em parte, com recursos públicos. Nove parlamentares que perderam o
mandato por envolvimento em esquemas de corrupção ou improbidade administrativa
recebem os pagamentos mensais - o valor mais baixo é de R$ 8.775,38. As
aposentadorias somam R$ 126.960,94 por mês e seu pagamento não é ilegal. Dos
beneficiários desse montante, cinco deputados foram cassados em razão do
escândalo dos anões do Orçamento - grupo acusado de receber propina de
prefeitos e governadores em troca de liberação de recursos da União nos anos
1990 - e dois por causa do mensalão - esquema de compra de apoio político no
Congresso, segundo a acusação, durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. O petista José Dirceu, cassado em 2005 por
envolvimento no mensalão e agora condenado a 30 anos de prisão na Operação Lava
Jato, pode ser o próximo a receber o benefício. Na semana passada, a área
técnica da Câmara entendeu que o deputado cassado tem direito a aposentadoria
de R$ 9.646,57 por mês, conforme revelou a Coluna do Estadão. Caberá ao
presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), definir se Dirceu receberá ou não o
pagamento. Maia já disse que vai considerar o direito adquirido do petista e
não vai politizar a questão. A decisão ocorrerá em meio à retomada das
articulações para a votação da reforma da Previdência, que, segundo o governo
Michel Temer, tem como um dos objetivos eliminar privilégios e igualar direitos
de servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada. A expectativa do
Palácio do Planalto é de conseguir votar a proposta de emenda à Constituição
(PEC) na Câmara, mesmo que mais enxuta em relação ao texto inicial, até meados
de dezembro. Para a aprovação da reforma, são necessários 308 votos. Além
dos pagamentos feitos aos parlamentares cassados, a Casa também reserva uma
pensão de R$ 937 à família de um deputado que era aposentado e perdeu o mandato
durante a ditadura militar. Procurados, os parlamentares cassados disseram
que pagaram pelo direito de receber aposentadoria e rechaçaram o rótulo de
"privilegiados". A maior aposentadoria paga aos cassados é a do
ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que perdeu o mandato em 2005 no
mensalão. Pedro Corrêa (PP-PE), atualmente preso na Operação Lava Jato e
cassado em 2006 também no mensalão, recebe benefício de R$
22.380,05. Hoje, o teto da Previdência Social para aposentadoria do
trabalhador da iniciativa privada, pago pelo Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS), é de R$ 5.531,31. Até 1997, deputados e senadores se valiam
de um plano fechado de previdência com regras mais benevolentes do que as
atuais. Pelas normas antigas, do Instituto de Previdência dos Congressistas
(IPC), o deputado com oito anos de mandato e idade mínima de 50 anos já podia
pleitear o benefício. O valor da aposentadoria era proporcional ao tempo de
mandato. Se ele tivesse completado o mínimo de oito anos, teria direito a 26%
da remuneração mensal de parlamentar. Com o fim do IPC, extinto em 1999
depois de registrar um rombo de R$ 520 milhões, a Câmara e o Senado ficaram
responsáveis diretamente pelo pagamento dos benefícios. Atualmente,
parlamentares podem requerer a aposentadoria integral desde que comprovem 35
anos de contribuição e 60 anos de idade. O Plano de Seguridade Social dos
Congressistas (PSSC) prevê o pagamento proporcional de aposentadoria conforme o
tempo de mandato. O salário de um deputado é de R$ 33.763. Segundo o site da
Câmara, só compensa a adesão ao plano caso o parlamentar fique ao menos cinco
anos no exercício do mandato. As contribuições funcionam com regras
semelhantes às das entidades de previdência privada, nas quais os participantes
pagam uma cota e a entidade patrocinadora contribui com uma cota equivalente.
No caso, o valor atual da contribuição do deputado ao PSSC é de R$ 3.713,93
(11% da remuneração atual) e a Câmara entra com uma cota de igual valor,
retirada do orçamento público. Deputados cassados aposentados pela Câmara
afirmaram que pagaram pelo direito de receber os benefícios e rechaçaram o
rótulo de "privilegiados". "Contribui todo mês", disse
Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), que perdeu o mandato durante o escândalo dos anões do
Orçamento. Ele é um do caso dos parlamentares que se aposentaram com as
regras do plano antigo, mais benevolente aos deputados. Hoje deputado estadual
no Rio Grande do Sul, Ibsen Pinheiro recebe aposentadoria de R$ 12.070,27 por
mês. O peemedebista cumpriu quatro mandatos e pagou o plano de previdência nos
três primeiros. O deputado destacou que seu benefício é proveniente de um fundo
privado. Jerônimo Reis (PMDB-SE) foi cassado em 2010 por improbidade
administrativa e recebe R$ 18.690,24. Segundo o deputado cassado, foram três mandatos
de contribuição com parcelas superiores a R$ 3 mil. O ex-parlamentar defende a
reforma do sistema previdenciário. "A gente sabe que a nossa Previdência
não aguenta", disse Reis. Hoje comerciante no município de Lagarto
(SE), Reis não se considera um privilegiado. "Para mim não foi privilégio,
eu paguei um valor alto. Esse fundo foi criado para parlamentares, foi
oferecido desde o primeiro mandato. Não é uma Previdência pública, foi criada
pela Câmara", enfatizou. Reis também concorda com a concessão do benefício
a Dirceu. "Se ele tem direito, é um direito", afirmou. Maior
beneficiário entre o grupo de deputados cassados, Roberto Jefferson (PTB)
afirmou que prestou serviços como deputado por 24 anos e contribuiu para o
plano durante todo o período. Antes de assumir a função, Jefferson explicou que
contribuiu por 20 anos para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) como
empregado da iniciativa privada e autônomo. Seu benefício é maior, segundo sua
assessoria de imprensa, porque ele se aposentou por motivo de doença e por isso
não recolhe Imposto de Renda. Algoz de Dirceu no escândalo do mensalão,
Jefferson também demonstrou concordar com o pleito do petista. "Por que
seria diferente para o ex-ministro José Dirceu, se ele contribuiu de fato para
o INSS como deputado?", respondeu via assessoria de imprensa. O
Estadão/Broadcast procurou os outros ex-parlamentares, mas não conseguiu
localizá-los.

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